quinta-feira, julho 19, 2007

Felicidade banalizada, é aqui mesmo!*

Já tenho um filho e um cachorro
Me sinto como num comercial de margarina
Sou mais feliz do que os felizes
Sob as marquises me protejo
do temporal

Oh meu amor me espere
Que eu volto pro jantar
Ainda tenho fome

Eu vejo tudo claramente
Com os meus óculos de grau
Loucura é quase santidade
E o bem também pode ser mal

Engrosso o coro dos contentes
E me contento em ser banal
Loucura é quase santidade
E o bem meu bem pode ser mal

[Um Filho e Um Cachorro - Pet Shop Mundo Cão - Zeca Baleiro]
*Contra a banalização da felicidade resumida em comerciais de margarina,
contra a hipocrisia,
contra a liberdade de escolha controlada,
contra as idades ideais estipuladas.
Podemos ser só, e pronto?
Só ser.

quarta-feira, julho 18, 2007

Clariceando

Ele falava a tarde toda:
- Afinal nessa busca de prazer está resumida a vida animal.
A vida humana é mais complexa: resume-se na busca do prazer, no seu temor, e
sobretudo na insatisfação dos intervalos. É um pouco simplista o que estou falando, mas não importa por enquanto. Compreende? Toda ânsia é busca de prazer. Todo remorso, piedade, bondade, é o seu temor. Todo o desespero e as buscas de outros caminhos são a insatisfação.Eis aí um resumo, se você quer. Compreende?
- Sim.
- Quem se recusa ao prazer, quem se faz de monge, em qualquer sentido, é porque tem uma
capacidade enorme para o prazer, uma capacidade perigosa - daí um temor maior ainda. Só
quem guarda as armas a chave é quem receia atirar sobre todos.

[trechos do diálogo entre Joana e o professor, ... O Banho - Perto do Coração Selvagem, CLARICE LISPECTOR]

sábado, junho 23, 2007

Vida Seca

Depois de tudo eles apagaram as luzes como se não houvesse ninguém lá
Eu era uma terra seca, infértil. Nada poderia florescer se não contivesse em si qualquer possibilidade de desenvolvimento.
Pensei, achei triste, achei que era seco demais. Me defendi. Eu pensei. Eu não poderia deixar nascer. Não deixaria nascer algo que já estivesse morto.
Eu não era contra o nascimento, apenas não permitiria o nascimento de algo que nasceria morto.

quarta-feira, junho 13, 2007

Quem retirou a última pedra do muro
em que estávamos vivendo em cima?

sábado, junho 02, 2007

Recíprocas verdadeiras

Cadê Você (Leila XIV)
Chico Buarque

Me dê noticia de você
Eu gosto um pouco de chorar
A gente quase não se vê
Me deu vontade de lembrar

Me leve um pouco com você
Eu gosto de qualquer lugar
A gente pode se entender
E não saber o que falar

Seria um acontecimento
Mas lógico que você some
No dia em que o seu pensamento
Me chamou

Eu chamo o seu apartamento
Não mora ninguém com esse nome
Que linda a cantiga do vento
Já passou

A gente quase não se vê
Eu só queria me lembrar
Me dê noticia de você
Me deu vontade de voltar

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Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida,
pus-te ali.
Até que tuas raízes atravessaram
o meu peito.
Se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca.
Floresceram comigo.

[Pablo Neruda]

domingo, maio 06, 2007

Retalhos

A porta ficara aberta.
E o quadro torto na parede da sala que já havia incorporado
a bagunça costumeira.
A mesinha de centro esquivada à direita
sem traços de vasos ou flores.
O relógio da parede num desritmado ansioso
pelo barulho do telefone.
Nada havia mudado naquela
tarde ensimesmada de domingo
Não fosse a porta aberta e a ausência de ruídos.